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Conservação e Restauro de Escultura e Talha Dourada   E-mail 


Tal como qualquer pessoa, as obras de arte possuem identidade e vida próprias. Depois de riscadas e executadas pelos artistas, as obras de arte vão testemunhando e absorvendo um conjunto de experiências. De acordo com a sua antiguidade, materialidade, autoria, proprietários, função e funcionalidade, cada obra de arte ganha uma certa individualidade. As obras de arte vão sendo sujeitas à materialidade do Tempo, as rugas da vida.

O mau entendimento da identidade de uma obra de arte por parte do Homem, distorcendo a sua função original, sacrificando-a com intervenções segundo critérios muito discutiveis ou desconsiderando-as, é sem dúvida alguma a sua principal causa de deterioração, ultrapassando largamente as marcas causadas pelo Tempo.

O amarelecimento do marfim, os movimentos naturais da madeira, a descoloração de alguns pigmentos, o desgaste da fina folha de ouro, a perda de coesão das preparações, a oxidação dos metais e adeposiçao de sujidade poderá ser inevitável. Contudo, um tratamento de Conservação e Restauro não tem como objectivo restituir a aparência inicial de uma peça, o que é impossível e contraria a ética, mas sim restituir a estabilidade quiímica/fisica e a harmonia estética estritamente necessária para uma correcta interpretação e leitura da composição artística.

 

 

.: A Especialidade de Escultura :.


A especialidade de Escultura é divisível em três subcategorias:

  • Escultura de vulto
  • Escultura arquitectónica
  • Escultura funerária


Escultura de
vulto
é toda aquela que cujo volume corresponde a pelo menos ¾ do volume real, como por exemplo as imagens religiosas, estátuas, estatuetas, figuras, bustos, grupos escultóricos e modelos.

A escultura arquitectónica ou escultura integrada é aquela que complementa a decoração interior ou exterior de um edifício para o qual foi expressamente concebida, respeitando escrupulosamente os planos arquitectónicos. Nesta vasta subcategoria poderemos agrupar peças como retábulos, altares, relevos, revestimentos em talha dourada e/ou policromada, medalhões, molduras, brasões de armas ou maquetas arquitectónicas.

A escultura funerária, como o próprio nome indica, é aquela, jacente ou não, que pertence a um túmulo, estela, sarcófago, arcosólio, mausoléu ou monumento fúnebre.

Uma escultura poderá ser obtida através de diferentes técnicas de execução como o talhe, a modelação, a moldagem ou a fundição. A técnica de execução de uma escultura está estreitamente ligada com o material que lhe servirá se suporte. Destacamos os mais comuns:

  • barro cozido
  • cera
  • gesso
  • madeira
  • marfins e osso
  • metal e ligas metálicas
  • papel
  • pedra
  • resinas sintéticas


O suporte esculpido, seja ele qual for, pode ser complementado com policromia, estofo, dourado, prateado, por exempo.

Entendemos por estofado o conjunto de técnicas de trabalhar o ouro combinado com policromia de modo a dar a ilusão de tecido, o estofo, como o punçuado, esgrafitado, estofado, incisão ou o relevado. Pela sua importância estética ou apurada técnica de execução, este revestimento poderá ser tão rico que extravasará o seu próprio papel complementar na composição plástica, constituindo ele próprio uma obra e arte e sobrepondo-se muitas vezes à própria forma escultórica, a protagonista da mensagem da composição escultórica.


.: Estado de Conservação :.

O estado de conservação de uma peça está extritamente ligado os factores de degradação intrínsecos e extrínsecos. Entendemos como factores intrínsecos todos aqueles que têm a sua origem na própria peça, quer a nível químico, físico ou deficiente produção. Assim sendo, assim os factores extrínsecos serão aqueles que têm origem no contexto ambiental em que as peças estão ou estiveram inseridas, como a luz, a humidade relativa, poluição atmosférica, ataque biológico, mau manuseamento, função alterada, intervenções posteriores inadequadas, entre outros.

O estado de conservação poderá ser avaliado em cinco níveis diferentes:

  • Muito Bom
  • Bom
  • Razoável
  • Mau
  • Muito mau


Como o material de suporte tem naturalmente uma importância fundamental para a sua degradação, o seu conhecimento profundo é essencial para a identificação e compreenção da degradação presente.
Assim e de um modo muito vago, as degradações mais comuns nas esculturas são:

  • Faltas de suporte;
  • Fracturas;
  • Fissuras;
  • Ataque biológico;
  • Camada de sujidade sobre a superfície;


De acordo com cada material constituinte do suporte, as esculturas poderão ter deteriorações específicas, como:

  • Falta de coesão do barro cozido e da pedra;
  • Oxidação de elementos metálicos;
  • Carbonização da madeira;
  • Alteração de cor dos marfins e do osso;


Os danos mais frequentes no revestimento das esculturas, seja ele polícromo, estofado ou dourado, são os segintes:

  • Lacunas;
  • Falta de adesão, provocando o seu destacamento;
  • Levantamento;
  • Rede de microfissuras;
  • camada de sujidade sobre a superfície;


.: Tratamento de Conservação e Restauro :.

A Conservação e Restauro moderna tem uma base científica extremamente importante, aplicada essencialmente no estudo das obras de arte, na metodologia de intervenção, na selecção e manipulação dos produtos a aplicar, na actualização dos conhecimentos e nas técnicas a empregar e filosofia a seguir. Como já referido, o respeito pela identidade da peça e a aceitação das marcas do tempo é absolutamente essencial para um correcto tratamento de Conservação e Restauro.

  • Integração formal do suporte em falta, quando extritamente necessário para a sua estabilidade física ou melhor leitura e interpretação da mensagem transmitida;
  • Desinfestação das esculturas em madeira, algumas com ataque de insecto xilófago aparentemente cessado, mas muitas vezes o insecto encontra-se inactivo e pronto a entrar em acção assim que tiver condições ambientais para isso, pondo seriamente em risco todos os objectos de madeira que se encontrem no mesmo espaço, tal como a estrutura em madeira dos próprios edifícios;
  • Limpezas do suporte;
  • Consolidação do suporte quando este se apresenta de tal modo fragilizado que a sua resistência física se encontra em causa;
  • Remoção de intervenções posteriores, grande parte delas alterando a estética ou mesmo adulterando a mensagem a transmitir.
  • Fixação do revestimento de modo a evitar o seu destacamento;
  • Limpeza dos revestimentos, removendo manchas, cera de velas, sujidade e detritos de várias naturezas;
  • Preenchimento, nivelamento e integração cromática pontual de lacunas do revestimento mais importantes que pela sua localização, dimensão ou formato desvirtuarem a leitura da composição ou só por si constituam um foco de chamada de atenção importante, preterindo o interesse da própria peça. Estas integrações serão efectuadas de acordo com os princípios vigentes, respeitando sempre os limites da lacuna e nunca sobrepondo o revestimento original;
  • Aplicação de uma camada de protecção final, de modo a dotar a peça de alguma resistência a agentes de deterioração exteriores

Mesmo acreditando que determinada peça está em bom estado de conservação, não hesite em consultar um especialista.